quinta-feira, 3 de março de 2011

(Des)Controlo


Esta terrível, terrível semana.



Nem consigo exactamente explicar o que é que sinto mais neste momento: se este período foi tão absurdamente curto, ao ponto de não fazer ideia como raio é que cheguei a sexta feira, ou se me parece um abismo de tempo. No entanto, o mais irónico no meio disto continua a ser o facto de ter chegado à conclusão que nunca existiu (e provavelmente nem existirá) um “melhor momento” para meter toda esta situação aqui por palavras, nem nenhuma forma de relatar as coisas que me pareça inteiramente honesta. É como se esta calma fria e quase irreal, que tomou conta de mim nestes últimos dois dias, fosse quase tão enganadora como a forma de pensar distorcida e brutal do momento. Mas como a minha amiga cronista uma vez disse, e isto nunca me saiu realmente da cabeça, “se não vos falasse estaria a mentir” - e não escrever aqui seria a forma mais óbvia de mentir a mim mesma (e de me esquecer de todo este episódio). Enfim.

Não entreguei a minha candidatura para Erasmus.

Resume-se a isto.
Sim, a merda de Erasmus. Possivelmente a única coisa pela qual eu ansiei durante tanto tempo - aquilo que eu precisava, imaginava e até já respirava. A oportunidade de estudar no estrangeiro. As ruas alinhadas e o ar frio do centro da Europa, os sons de uma língua por entender, a oportunidade de conhecer e experimentar, os cantinhos por descobrir, as pessoas e os ambientes por estrear. Tanta, mas tanta coisa caramba. A perspectiva de sair daqui por fim.
Acima de tudo, e se havia algo que eu sentia como real e verdadeiro nesta experiência, é que era minha e única: que este seria o tempo de mim para mim, finalmente. Um pretexto para experimentar, pôr-me à prova, crescer. (Ou será que o que me aliciava mesmo era fugir?). Seja como for, fiz exactamente aquilo que já sabia que não devia fazer: concentrei demasiadas das minhas expectativas neste pequeno e condensado objectivo, como se ir nesta viagem fosse a única coisa que tivesse de ser feita para provar alguma coisa - talvez não na realidade, mas na minha cabeça esta ideia fazia todo o sentido.

Em vez disso deparo-me com aquilo que nem considerei verdadeiramente: não ir a lado nenhum de todo, pelo menos por agora. Faz-me sentir como com uma mão cheia de absolutamente nada e, honestamente, não creio que ninguém saiba até que ponto eu queria (precisava) disto.

Contudo, o mais assustador não é sequer o que aconteceu nesta situação em particular. É antes saber que a forma como aconteceu, já se repetiu uma e outra, e outra, e outra vez.. Com consequências drasticamente diferentes, é certo, mas ainda assim tem sido a sombra omnipresente de tudo (mas tudo) o que faço na faculdade, e provavelmente fora dela: o entregar exactamente até à lasca do último minuto, as coisas inacabadas e imperfeitas, o tempo descomunal para trabalhar, a falta das horas de sono, o pânico, o stress, a culpa e a frustração. São as minhas cadeiras por fazer e os ecos desapontados e confusos dos meus professores quando revêem o meu trabalho final e fazem a pergunta inevitável: "você podia ser uma boa aluna mas porque é que afinal não entregou isto a tempo?”. Para quê afinal as lágrimas, o sangue e o suor?

É certamente mais do que procrastinação: é auto-sabotagem, embora não compreenda exactamente porquê. E ainda por cima em ciclos contínuos e invariáveis que se repetem, como um vício em que os mesmos erros são levados à exaustão.

Mas é engraçado (aliás, não, não é de todo mas é a puta de uma ironia) que eu já vinha com essa sombra, de sobreaviso para entregar as coisas dentro do prazo da candidatura: um portfolio, uma carta de inscrição, uma ficha online. E fiquei tão aterrorizada com a perspectiva de não conseguir concluir um bom portfolio que - e apesar de este ter ficado tudo acabadinho até ao último momento - o que me lixou foi, em última análise, as outras duas coisas que se fazia em pouquíssimo tempo, mas que vieram fora do prazo ainda assim. Coisas tão assustadoramente simples para o comum dos mortais que acabaram por comprometer tudo o resto, na esperança de serem rapidamente feitas no último momento. É aterrorizador, grotesco, surreal. Psicológico também suponho.

Nunca conseguirei explicar a sensação que foi voltar e ver a secretaria absolutamente fechada pouco tempo depois, quando tinha as coisas finalmente impressas. O estar do outro lado daquela porta tornou-se em algo de absolutamente visceral, nítido e inconcebível. Juntou-se a uma directa e ao cansaço de um fim-de-semana, ao stress da última hora, aos estados hormonais e à descarga psicológica que tudo aquilo subitamente envolvia - sentia que fechava os olhos e entrava em colapso, a cara inchada do sono e das lágrimas. Fui para casa fazer o meu pequeno luto, felizmente sem ninguém ter chegado; rodei a chave e estava tudo escuro, vazio e silencioso. Fez-me pensar na facilidade assustadora como tudo o resto pode cair e parecer entrar em ruptura súbita. Tive o meu tempo; acabei por me recompor, fui falando com algumas pessoas sobriamente e surgiu até a centelha de esperança que aquilo podia ser resolvido.

No meu íntimo penso que me convenci mesmo disso, de tal forma que quando voltei à secretaria no dia seguinte para confirmar a minha situação, a única diferença foi ter de encarar a mesma negação absoluta, por uma segunda vez e pessoalmente. Fiquei a olhar para a mulher e a pestanejar várias vezes estupidamente até dar meia volta e perceber que já só tinha apenas um nó amargo na garganta. Acho que foi aí que percebi o que todo aquele “não” significava em toda a sua extensão.

Não queria ir para casa e muito menos encontrar quem quer que fosse, mas lembrei-me desta velha ideia que me ocorrera e decidi apanhar o comboio até ao fim da linha para Cascais. Estava um tempo magnífico e tinha o resto do dia por minha conta mas, enquanto esperava pelo comboio, só me conseguia sentir patética e longe de qualquer ideia romântica; não queria ir para Cascais para “me encontrar a mim mesma nas ondas da praia, à beira-mar” mas porque não me ocorreu mais nenhum sitio onde não pudesse ter absolutamente ninguém. Tudo aquilo parecia uma espécie de sonho peculiar até porque pouca gente vinha na minha carruagem. De vez em quando as vagas de infelicidade voltavam de forma inesperada, mas depois começavam a dissolver-se com o resto da paisagem em movimento.

O facto de ter oportunamente um livro para ler (e para tratar como projecto de trabalho) deu-me pretexto suficiente para depois do almoço me aventurar pelas orlas da praiazinha e me sentar por lá, como o sol na cara e praticamente ninguém em volta. Foi estranho. Não tive (nem esperava) nenhuma epifania súbita mas estar ali foi como se de facto me deixasse vazia do excesso de pensamentos, com a areia fina por baixo e todo o cenário à minha volta. Ter falado com algumas pessoas, quando voltei, ajudou-me a meter a cabeça lentamente em ordem e, principalmente, o café tardio com a minha boa amiga cronista veio no momento certo - foi a descarga final que eu precisava, algumas palavras de sabedoria boas e sólidas e trouxe maior leveza de espírito noutros temas.

O que aconteceu foi que toda esta confusão, caos e tristeza ficaram (até um certo ponto) exorcizados nesses dois dias absolutamente terríveis e, voltar agora a reentrar na rotina pareceu-me simplesmente a coisa mais natural a fazer. O “big elephant in the room” está lá mas, surpreendentemente, consigo falar dele e enfrenta-lo - se isto parece incoerente ou hipócrita da minha parte que seja, mas por agora garanto que nem consigo agir de outra maneira que não seja objectiva.

Veremos.


Mikhail Baryshnikov na imagem.

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